segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
O filho
- Um filho! – disse-lhe achando que compartilhava a melhor novidade da face da terra. Sentia-se a vontade para ser pai ao lado dela e fazer dela a mãe de seus herdeiros. Era o ato mais altruísta que pensou. A maior declaração de amor que podia fazer. Isso, sim, era amor. Contou-lhe seu desejo aguardando que ela pulasse no seu pescoço e beijasse a face até ficar avermelhada. Ela nada o fez.
Queria chorar de ódio. Como ele podia ser tão egoísta. Ela tinha tantos planos para ela. Terminar a faculdade, fazer o mestrado, doutorado. Queria emagrecer dez quilos. Operar a vista. Queria voltar a dançar e ele nunca se disponibilizou a ir com ela. Quis companhia para ir ao mercado e ele estava ocupado demais trabalhando.
Havia se decidido: aquela mulher era mulher da sua vida. Não podia deixar que ela se afastasse. Precisava mantê-la colada ao peito. Afastá-la de todas as dores do mundo. Aquela era a mulher que escolheu pra chamar de sua. Não era possível que ela não entendesse isso. Achava que se tivessem um filho deles, estariam conectados pelo resto da vida.
Na verdade, ela estava confusa. Não sabia nem se queria ter contato com aquele homem para o resto da vida. Uma vida é tempo demais. Lembrou-se de todas as renúncias que teria que fazer e pôs-se a chorar. Via-se presa a uma rede de carências da qual nunca conseguiu se desvencilhar. Era isso! Só estava com ele para suprir essa vontade de não estar sozinha consigo.
Desde que ela chegara, o apartamento estava cheio de vida. A toalha que ela deixava na cama, a mania de comer vendo televisão. Desde que ela chegara, os banhos eram cheios de amor. O modo como ela ensaboava o corpo todo para depois deixar a água levar a espuma. O jeito como escorria o pente nos cabelos lisos e pretos. Imaginava o mesmo cabelo para o filho que teriam.
Casamento já seria um golpe grande demais para a pretensa liberdade vivida por ela. Mas essa idéia de doido de ter um filho ultrapassou as barreiras da insanidade.
- Então, quer ter um filho comigo? – perguntou mais uma vez na esperança de que a resposta fosse positiva.
Neste momento, ela queria correr, sumir, voar, explodir. Ela desejou chamais tê-lo conhecido para que não precisasse viver isso. Mas covardemente respondeu que queria o mesmo filho. No fundo, sabia que só uma criança preencheria a solidão de si mesma vivida por ela.
domingo, 16 de janeiro de 2011
Vida Vazia
Nem sempre faço sentido, é pra fazer? Vem no manual de instruções que o homem deve fazer sentido? Isso vale pra mulher também? Nem sempre quero, mas exijo explicações o tempo todo, de todo mundo. Na verdade, se eu não faço muito sentido, é justo que os outros façam. Na minha cabeça, as coisas todas precisam fazer sentido. Mesmo que a minha cabeça não faça sentido pra ninguém.
Espero demais porque dou demais. Agora, eu me perdi, será que dou demais pra poder querer demais? Só sei que eu quero, quero as respostas de e-mails de gente que escorregou pelos meus dedos e que eu amava como amava um beija-flor e que ficaram no passado. Exijo resposta dos que não foram, mas de quem não mandei e-mail algum. Em muitos momentos, demonstrei menos querer e não fui querida. Depois disso, me achei boa por não ter caído numa cilada. Mas silenciosamente, eu sinto falta do não vivido por medo.
Falando em medo, acusaram-me de não tê-lo. Na hora eu me senti destemida, só que agora, eu me sinto fraca. Como pude fingir que não tinha medo por tanto tempo? Sentir medo não é pecado e se tivesse sido medrosa, será que não teria parecido menos auto-suficiente.
Conheci alguns homens que quiseram cuidar de mim. Poucos, acho eu. Ou será que outros quiseram, mas eu era forte demais pra ser cuidada? Meu pai o faz com maestria, sempre fez e eu sempre quis ser a filha com personalidade e me dei pouco tempo pra entender os cuidados dele. Cuidados estes que eu achava inconvenientes. Hoje, eu to sozinha e me sinto sozinha frequentemente.
O telefone que não toca, o telefone que não é atendido. Não sei se ligo de novo, você deve estar dormindo. Quando sinto vazio de você, tendo a ligar pra outras pessoas pra ver se preenche. Acho que não devia achar que os outros devem me encher, saudade de quando eu dizia bastar a mim mesma. Não lembro se eu bastava mesmo ou dizia isso porque estar vazio é como estar um pouco morto.
Queria ser com você o que eu sou com os outros. Mais independente e bem resolvida. Não queria depender de você pra calcular minhas contas ou pra pagá-las. Queria te amar descompromissadamente, dá? A gente tem tanta coisa que não tem mais tanto tempo pra se amar, só amar. Queria passear na praia e só, não queria estar vazia e do teu lado. Queria sentir-me cheia de alegria por estar com você, meio preenchida. Não to dizendo que você é a única coisa que me faz feliz. Mas queria estar mais feliz contigo. Também não to dizendo que tô infeliz.
Queria estar com borboletas na barriga, eu acho. Será que a paixão acabou e tá dando lugar àquele amor boboca, chato, repressor, com barriga de chopp e camisola de vovó? Não gosto dele. Sempre achei que não queria viver o amor pra sempre, quando a gente só ama, a gente separa pra não matar o amor porque amor é sagrado.
Queria ter tempo de estar apaixonada por você ou de estar apaixonada por alguma coisa. Queria que você não conhecesse todas as minhas roupas pr’eu acreditar na sua capacidade de se surpreender quando eu estiver realmente bonita. Queria andar na praia de mãos dadas. Já disse? A gente pode voltar a ter tempo pra namorar sem ter que falar de dinheiro? De contas a pagar? Espero que sim porque eu não posso viver assim por muito tempo.
Você me faz feliz, eu quero estar contigo sempre. Mas preciso respirar outras coisas e você também. Mesmo que outras coisas sejam nós mesmos com coisas novas. “Há de ter o prazer do saber e a leveza do
experimentar...” .
Tem dias que eu olho seu sorriso lindo e penso como é bom estar do teu lado. Mas hoje não é um dia assim, hoje, eu penso que queria ver a mesma beleza do seu sorriso. Hoje parece que a vida se esvaiu um pouco de mim, amor.
Texto de Julho de 2010.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
Meu Menino
Entre mil caminhos possíveis, eu te encontrei. Já não me lembro como e quando nos tornamos assim como somos hoje. Também já não sei mais se existe vida sem você. Eu, no fundo, gosto de pensar que não há. Só de ser permitido o pensamento da existência de vida depois da plenitude da mesma contém em si crueldade demais para um coração leviano como o meu.
Nós dois sabemos dos nossos defeitos. É uma cumplicidade absurda. É o amor que compreende. Você me aceita como eu sou e sabe que sou torta. Todos os dias, se apaixona por esta como se fosse a única.
Você, meu amor, é a representação do verbo amar. Queria eu amar do teu jeito. Saber amar como ti faria de mim alguém melhor. Mas nós dois sabemos da leviandade do meu ser. Sabe dos folhetins que escrevo. Nós dois sabemos que o amor não são minhas paixões momentâneas.
Talvez, me restem poucas palavras pra dizer que te amo. Sabe de uma coisa, João, eu te amo, sim porque você é o homem mais completo do mundo. Lá fora, amor, é frio sem você. O mundo carrega crueldade demais para almas apaixonadas. De qualquer modo, ter você faz de mim mais do que sou, de fato. Sou mais bonita, mais gostosa, mais inteligente, mais vitoriosa, mais controlada. Você faz de mim o melhor de mim. E foda-se, não quero que haja vida sem você.
Eu te amo, meu menino.
domingo, 12 de dezembro de 2010
Medo do Medo que dá
O meu medo é o de dormir sozinha. Fazê-lo significa solidão demais para um corpo como o meu. Eu tenho um medo silencioso do fracasso, da tristeza, da decepção. Tenho medo de fazer escolhas erradas que me deixem passar as noites sozinha ou em busca. Não quero ter buscar aquilo que já encontrei. Não gosto de imaginar como é sofrível viver a procurar.
Dormir sozinha significa muito mais do que ocupar a cama inteira. Significa imaginar que terminarei sempre sozinha à noite. Ou que a companhia fica condicionada a uma porção de variáveis que incluem planejamento demais.
Significa um contentamento fingido de quem já teve a companhia que queria. É ter que ser novamente um alguém forte porque ninguém pode perceber os momentos em que se é menininha e vulnerável.
Eu tenho mesmo medo de dormir sozinha e sei que sou grande demais para isso, mas o medo não vem da pequenez, o medo simplesmente vem e a gente sempre tenta fingir que não tem. Medo é medo. Não quero ser grande e fingir que não vai fazer diferença passar as noites sozinha.
Talvez o meu medo seja estar fadada à solidão.
quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Vontade da Saudade
Queria escrever cartas saudosas. Mandar dizer a todos os amigos que estarei de volta e desejo que assim fosse. Queria dizer aos amores que larguem seus atuais amantes porque estou indo de encontro a nossa felicidade. Queria ter saudade porque a saudade alimenta a poesia e é permissiva.
Queria dizer a uma amiga que sinto a falta dela, mas a saudade é um sentimento tão bobo que faz com que nos acostumemos com ele todos os dias. Queria ainda sentir saudade dessa amiga e não ter medo de que percamos as palavras. Queria que as notícias que vejo dela fizessem sentido pra mim. Tanta coisa mudou desde que ela se foi.
Durante um tempo, eu ainda tinha forças pra perguntar como estava, o que fazia, pra onde ia, mas agora, nosso amor ta assim meio morno, meio na geladeira, meio na espera. De repente, seja só uma fase que dura. Descobri que as coisas duram mais depois dos vinte, quiçá, aos vinte e um.
A vontade da saudade tem um quê de masoquismo besta. Tem um quê de amor abandonado, esquecido, aprisionado e maltratado. A vontade da saudade é o amor guardado, esperando pra acontecer.
Eu só sei que há amor naquilo que se foi junto.
domingo, 14 de novembro de 2010
Porque é Ela, Porque sou eu
Somos cúmplices naquilo que a vida nos tornou. Somos as gargalhadas dadas após esquivarmos de alguém. Somos a escolha dos homens que deixamos pra trás. Somos, também, aqueles que carregamos na memória, algumas doídas e outras felizes. Somos as risadas. Somos as madrugadas cantadas na descida da Rua Alice. Somos a casa de cor rosa que planejamos algumas vezes e que executamos em muitas.
Somos aquilo que somos. Na verdade, somos aquilo que nos tornamos juntas. Somos o sorriso da outra, os amores e os desamores. Estamos no amargo e no doce das bebidas que inebriam e dos homens que alteram os juízos. Somos a vontade de continuar e a vontade parar. Saímos dos folhetins e sobreviveremos a eles.
Somos o amor que cala, que chora, que briga, que ama, que odeia e que grita. É o amor que aceita, que vive e que corre. É o amor que deu o pulo certo quando se encontrou. Este é o amor que entende. Este é o amor que devém. É o amor por se fazer amor e por se deixar amar. Este é o amor que é!
quinta-feira, 14 de outubro de 2010
Carta aos Candidatos
Quando se comprometem com a ignorância ao perfil laico do estado, deixam de lado o número de ateus ou não-cristãos que temos no Brasil.
Quando se comprometem com a homofobia, impedem o Brasil de alcançar o avanço dos direitos humanos que já legaliza o casamento entre pessoas do mesmo sexo em vários outros países, inclusive entre os hermanos argentinos. O número de homossexuais assumidos que andam nas ruas, trabalham e querem para si o DIREITO QUE TODO CASAL tem do casamento, da pensão, etc,
Espero que a proposta de governo de vocês não compactue com a tortura se for da vontade da maioria egoista e egocentrica da população que visa perpetuar os seus próprios valores socio-religiosos por aí.
Liberdade de crença, sim. Liberdade de crença inclui em dar ao outro o direito de não acreditar.
Quando os senhores ignoram essa parte da população em troca de votos, o Brasil retrocede e dói no coração de brasileiros que só querem o mesmo respeito às suas crenças e opções que os demais têm. Brasileiros que não são menores ou desqualificados. Brasileiros que se distanciaram do senso-comum e são consideradas anormais. Agora, por favor, não esqueçam que o ESTADO É LAICO e nos respeitem enquanto brasileiros que somos.
Pouco me importa a crença dos senhores candidatos, eu quero que o direito de TODO E QUALQUER BRASILEIRO INDEPENDENTE DE CREDO, COR, OPÇÃO SEXUAL SEJA ACEITO E RESPEITADO.
Atenciosamente,
Camila Mattos da Costa
PS: Discutam mais políticas públicas sérias e menos religião. O Brasil agradece.
PS: Espero que os senhores governem para todos os Brasileiros.